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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Bright Star of Beauty



                          BRIGHT Star of Beauty! on whose Eyelids sit
                          A thousand nymph-like and enamoured Graces,
                          The Goddesses of Memory and Wit,
                          Which there in order take their several places.
                          In whose dear Bosom, sweet delicious LOVE
                          Lays down his quiver, which he once did bear,
                          Since he that blessèd Paradise did prove;
                          And leaves his mother’s lap, to sport him there.
                            Let others strive to entertain with words!
                          My soul is of a braver mettle made:
                          I hold that vile, which vulgar Wit affords,
                          In me ’s that faith which Time cannot invade!
                            Let what I praise, be still made good by you!
                            Be you most worthy, whilst I am most true!



Tsukioka Yoshitoshi - Emperor Jimmu, guided by Yatagarasu

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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Bright Star of Beauty



 
A Han Dynasty mural painting of a three-legged bird (Sanzuniao) from the Henan province, northern China.


                          BRIGHT Star of Beauty! on whose Eyelids sit
                          A thousand nymph-like and enamoured Graces,
                          The Goddesses of Memory and Wit,
                          Which there in order take their several places.
                          In whose dear Bosom, sweet delicious LOVE
                          Lays down his quiver, which he once did bear,
                          Since he that blessèd Paradise did prove;
                          And leaves his mother’s lap, to sport him there.
                            Let others strive to entertain with words!
                          My soul is of a braver mettle made:
                          I hold that vile, which vulgar Wit affords,
                          In me ’s that faith which Time cannot invade!
                            Let what I praise, be still made good by you!
                            Be you most worthy, whilst I am most true!



Tsukioka Yoshitoshi - Emperor Jimmu, guided by Yatagarasu

 
Yatagarasu, the three-legged crow deity on the chōzuya (water purification basin) at Kumano Jinjay

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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

domingo, 7 de julho de 2013

Dragão Vermelho


Agora, depois de pensamentos tão profundos e tanta telepatia, os neurónios vão à praia descansar. 
Qual praia? Não sejais curiosos mas vá... vou à praia do Dragão Vermelho, gosto do nome. E até está muito boa agora, é bandeira azul e, embora nesta foto não se veja, tem chapéus de palha e espreguiçadeiras para alugar e tudo. Toda a Costa melhorou muito. Para além disso arranjei um truque para estacionar o carro onde não se paga nada, numa rua da Costa lá ao pé.

A vista é espetacular, acho que com uns binóculos potentes até se conseguia ver Carcavelos do outro lado do estuário do Tejo. Muito bom.




  Sculpture of St. George and the Dragon in Fairmount Park, Philadelphia. Sculptor unknown, date - before 1900

Depois vou comer um prego e beber uma imperial por ali. 
Esperem, um prego não, um peixinho, porque li aqui na Rádio Internacional da China que os idosos japoneses dizem que o segredo da saúde e da longevidade tem a ver com a dieta equilibrada e saudável:

"Os alimentos referidos na dieta dos idosos japoneses são muito nutricionais e fazem muito bem à saúde. Os peixes em alto-mar, como cavala, salmão, bacalhau e sardinha, são ricos em DHA e EPA, ajudando a melhorar a memória e reduzir a gordura no sangue." 

Eu admiro muito os chineses e os japoneses e acho que, quem os admira também, deveria  escutar a voz da sua sabedoria. Não especifica se eles comem os peixes mortos ou vivos, mas devem ser mortos porque eu uma vez tentei comer um vivo e depois andou-me às voltas no estômago, foi uma digestão difícil.

Tenho uma amiga ucraniana, a Tetyana, que é vegetariana e começa com aqueles argumentos de que não quer comer animais mortos, que horror, aí não porque é necrofíla, que os animais são nossos irmãos já dizia São Francisco e coisas assim. Eu um dia disse-lhe, estávamos os dois numa esplanada a beber uma imperial, numa altura em que o marido voltou 15 dias à Ucrânia:

"Tetyana, vamos fazer uma experiência científica para te provar que não sou necrófilo, ou seja, não tenho nenhum prazer sexual ao comer um bife." Ela riu-se e perguntou logo 
"Que vai sair daí?"
"É muito simples, colocas-me a mão entre as pernas enquanto eu me delicio com um bife. Se sentires uma ereção é porque tenho tendências necrófilas e então juro-te que passo a ser vegetariano!"
Ela corou e riu, enquanto compunha o decote do top, dado que uma mama estava a querer sair, sorrateira. Depois respondeu:
"Ah não podia ser, porque a minha mão te ia causar uma ereção e isso alterava a experiência..." A Tetyana é licenciada em medicina embora em Portugal seja rececionista.

"Hum.... Pois é tens razão, só se te ajoelhasses debaixo da mesa e observasses..." Ela riu mais e retorquiu que só se ajoelha na igreja perante o sacerdote. "Ah da tua vida privada não quero saber nada, não entres em pormenores!" disse-lhe eu com um sorriso.


Por acaso vi também na Rádio Internacional da China algumas fotos com a Scarlett Johansson para a Vanity Fair

Nesta a Scarlett estaria perfeita para a minha experiência científica sob a mesa:

 


É impressão minha ou esta foto é um pouco ridícula? Com o guardanapo?! ahah

Mas agora estava a ler outra coisa sobre carne vermelha, isto, e acho que da próxima vez que comer um prego pergunto se a vaca era elegante pois pelos vistos se forem vacas e bois "top-model" podem-se comer!

"A nutricionista Mariana Del Bosco, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), já perdeu a conta de quantas vezes ouviu pacientes dizendo: "Tenho hábitos saudáveis, por isso não como carne vermelha". Essa marginalização nutricional vem da época em que os bois passavam anos e anos se empanturrando no pasto. E o resultado desse regime especial era uma carne supergorda. Mas, em um mundo que luta contra a obesidade e outros males conseqüentes dos abusos à mesa, até os bichos tiveram de entrar na linha. "Hoje os animais são abatidos mais jovens e não têm tempo para acumular tanta gordura"

Gosto dos conceitos referidos no artigo de "marginalização nutricional da carne vermelha" e de "redenção do gado" através da sua reentrada na cadeia alimentar...

Afinal os animais comem-se uns aos outros e acho que nós, ao recusarmos comê-los, estariamos a querer colocar-nos acima deles. Seremos "demasiado finos" para sujar os dentes no rio de sangue que é a Vida? Sangue ao nascer, sangue na menstruação, sangue na morte, porque não sangue à mesa? Seremos demasiado piegas como dizia o Passos Coelho?

Morde o animal teu irmão e redime-o, oh humano(a)!

P.S.: Só espero que, por ter dito para onde vou, não me apareça nenhum(a) stalker do facebook. Não é por nada, é que detesto dar autógrafos na praia, só isso. :)

 
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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre os opostos



"All things come into being by conflict of opposites, and the sum of things (τὰ ὅλα ta hola, "the whole") flows like a stream."
 
"Opposition brings concord. Out of discord comes the fairest harmony."
 
"Couples are wholes and not wholes, what agrees disagrees, the concordant is discordant. From all things one and from one all things."
 
"When is death not within ourselves?... Living and dead are the same, and so are awake and asleep, young and old."

“What opposes unites, and the finest attunement stems from things bearing in opposite directions, and all things come about by strife.”

Heraclitus


"Our mind is capable of passing beyond the dividing line we have drawn for it. Beyond the pairs of opposites of which the world consists, other, new insights begin."

Hermann Hesse


"The most exciting attractions are between two opposites that never meet."

Andy Warhol


Performance piece involving a nude couple standing still, flanking a doorway, by Marina Abramovic
Art Basel 2012
 
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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

domingo, 16 de junho de 2013

"Werde, der du bist!” (torna-te quem és!) Friedrich Nietzsche


Artwork by Kazunari Negishi

José Saramago
 
"O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se. Isso lhes basta."

José Saramago (sobre as personagens de 'Jangada de Pedra')



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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

You can be a Master


St. George and the Dragon c. 1456 - Paolo Uccello
 




A Dama e o Unicórnio: À mon seul désir (Museu de Cluny, Paris)

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Apple Tree oh Apple Tree, under you what can i see?



"It is remarkable how closely the history of the apple tree is connected with that of man."
 
Henry David Thoreau






 

 


"(...) No terreno, através da névoa rasa, viu com curiosidade infantil uma terra suja e seca, endurecida pela madrugada. O homem não antecipou nada: viu o que viu. Como se olhos não fossem feitos para concluir mas apenas para olhar.
 
Até que, mais um segundo dessa própria isenção, e também sua cabeça foi atingida com graça pela incompreensão do que ele via. E num engano de que certamente precisou, um engano tão certo quanto a queda certa de uma maçã, ele teve um sentimento de encontro: pareceu-lhe que no grande silêncio ele estava sendo saudado por um terreno da era terciária, quando o mundo com suas madrugadas nada tinha a ver com uma pessoa; e quando, o que uma pessoa poderia fazer, era olhar. O que ele fez.
 
É verdade que seus olhos custaram a entender aquela coisa que nada mais do que: acontecia. Que mal acontecia. Apenas acontecia. O homem estava “descortinando”.
 
O terreno fora provavelmente uma tentativa, por fim abandonada, de jardim ou horta. Percebiam-se restos de um trabalho e de uma vontade. Certamente haviam alguma vez tentado estabelecer ali ordem inteligível. Até que a natureza, antes expulsa pelo plano de ordem, voltara sorrateiramente e lá se instalara. Mas em seus próprios termos.
 
Porque, qualquer que tivesse sido a sua época de glória e viço, agora o terreno tinha o silêncio do que é entregue a si mesmo. Havia algumas pedras cinzentas e duras. Um pedaço de tronco deitado. Raízes expostas de uma árvore havia muito tempo cortada, pois nenhuma umidade porejava mais no corte oblíquo. Ervas cresciam verticais. Algumas haviam atingido uma altura que já as tornava sensíveis à brisa adstringente da aurora. Outras eram rasteiras e coladas ao chão, e deste não se arrancariam sem morte. Terra grossa se esfarelava junto de um formigueiro; era uma desordem tranquila.
 
O homem ficou olhando até que a vida que se instalara no terreno começou a acordar. Mosquitos brilhantes, como se transportassem para ali o primeiro carregamento de luz. O passarinho cauteloso entre folhas secas. De uma pedra para outra, se cruzaram ratos e ratas. Mas na irmanação do silêncio, como um fuso trabalhando, um movimento não se distinguia do outro. Essa foi a sossegada confusão onde Martim caíra. (...)"

Clarice Lispector in "A Maçã no Escuro"

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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

The Tree of Life


"The tree which moves some to tears of joy is in the eyes of others only a green thing that stands in the way. Some see nature all ridicule and deformity... and some scarce see nature at all. But to the eyes of the man of imagination, nature is imagination itself."
 
"A fool sees not the same tree that a wise man sees."
 
William Blake

"All theory, dear friend, is gray, but the golden tree of life springs ever green."
 
Johann Wolfgang von Goethe

"Never say there is nothing beautiful in the world anymore. There is always something to make you wonder in the shape of a tree, the trembling of a leaf."
 
Albert Schweitzer

"Great talents are the most lovely and often the most dangerous fruits on the tree of humanity. They hang upon the most slender twigs that are easily snapped off."
 
Carl Jung  
 
 
The Tree of Life - Gustav Klimt

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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Apolo e Dafne


Para se entreterem enquanto eu, grato aos deuses do capitalismo (Mao me perdoe e não me chamem Zé Dong, parem com essa treta) ou então grato à minha boa Estrela (ou ao meu trabalho e capacidade negocial), escolho um carro e um computador e mais umas merdas materialistas porque estava mesmo a precisar, fica este TPC para os meus(minhas) queridos(as) leitores(as):

Estudar o mito de Apolo e Dafne e meditar sobre quem foi o culpado de Dafne se tornar vegan, isto é, árvore mesmo (loureiro) e de preferir tão triste sina a aceitar o amor de Apolo.

Terá sido Cupido? Apolo? A própria Dafne? Ou será que o culpado foi o pai, Peneu? 
Ou foram todos? Ou nenhum, foi o Destino?

Só mais uma coisa... não vale ir consultar Freud, ok?


Escultura de Gian Lorenzo Bernini, Museu do Louvre (galeria Borghese)

CARACTERÍSTICAS DA OBRA:
-Altura: 243cm. Largura: Sem informação. Profundidade: Sem informação.
-Estilo: Sem informação.
-Datação: 1622-1625.
-Matéria-Prima: Mármore Carrara.

INFORMAÇÕES HISTÓRICAS: 
Esta obra foi criada a pedido do Cardeal Scipione Borghese representando a ninfa casta Daphne sendo transformada em um loureiro perseguida em vão por Apolo, deus da luz.


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“To be nobody but yourself in a world which is doing its best day and night to make you like everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight and never stop fighting.” E.E. Cummings

domingo, 7 de abril de 2013

C'est l'heure


"Il existe une chose plus puissante que toutes les armées du monde,
c'est une idée dont l'heure est venue."

Victor Hugo


By Leo Kundas

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Infinity


“There are two infinities that confuse me: the one in my soul devours me; the one around me will crush me” 

Gustave Flaubert


Infinity mirror room fireflies on the water by Yayoi Kusuma

segunda-feira, 25 de março de 2013

... e caí menos mal



Urs Fischer's "Yes" installation



Havia em mim uma vintena de gerações,
Assim pelo menos,
E nessa manhã, vá-se lá saber porquê,
Uma janela deixada aberta talvez,
Alguém se atirou para o vazio.


Então subitamente todos eles
Se puseram a saltar
Uns atrás dos outros,
À bicha, como que fazendo a chamada
Sobre um trampolim,
Segundo o princípio da desintegração dos carneiros.


Em menos de uma hora e meia
Encontrei-me totalmente despido, sem nada,
E de vergonha atirei-me para o vazio também eu,
Devo ter morrido à altura do quarto andar,
Ao décimo, em todo o caso,
A coisa estava consumada.


Tudo isto,
É um mero passante,
Quem vo-lo conta,
Um de entre nós,
Melhor dizendo,
Que terá talvez caído menos mal.





Marin Sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997


Querida rapariga, o amor é masoquista


o amor é masoquista


O amor é masoquista.
Esses gritos, essas queixas, essas suaves inquietações,
esse estado de angústia dos apaixonados,
esse estado de expectativa, esse sofrimento latente,
subentendido, apenas manifestado,
essas mil e uma preocupações acerca do ser amado,
essa fugacidade do tempo, essas susceptibilidades,
essas alternâncias de humor, essas divagações,
essas criancices, essa tortura moral
em que a vaidade e o amor-próprio se encontram em jogo,
a honra, a educação, o pudor,
esses altos e baixos do tónus nervoso,
esses desvarios da imaginação, esse feiticismo,
essa precisão cruel dos sentidos
que chicoteiam e que rebuscam,
essa queda, essa prostração,
essa abdicação, esse aviltamento,
essa perca e essa recuperação perpétua da personalidade,
esses embaraços, essas palavras, essas frases,
esse emprego do diminutivo, essa familiaridade,
essas excitações nos contactos,
essa tremura epiléptica, essas recaídas sucessivas e
multiplicadas, essa paixão cada vez mais perturbadora,
tempestuosa e progressivamente devastadora
até à completa inibição,
ao completo aniquilamento da alma,
até à atonia dos sentidos,
até ao esgotamento do tutano,
ao vazio do cérebro,
até à secura do coração,
essa necessidade de prostração, de destruição,
de mutilação, essa necessidade de efusão,
de adoração, de misticismo,
essa insaciabilidade que leva a pedir auxílio à hiper-irritabilidade
das mucosas, ás divagações do gosto,
às desordens vasomotoras ou periféricas
e que apela para o ciúme e para a vingança,
para os crimes, para as mentiras, para as traições,
essa idolatria, essa melancolia incurável,
essa profunda miséria moral,
essa dúvida definitiva e pungente, esse desespero,
todos esses estigmas não constituem porventura os próprios sintomas do amor,
segundo os quais se pode diagnosticar
e seguidamente traçar com mão firme
o quadro clínico do masoquismo?



Blaise Cendrars
moravagine
trad. e pref. Ruy Belo
livros cotovia
1992




fragmento de carta para o jovem codignola


Querido rapaz, sim, claro, vamos encontrar-nos,
mas não esperes nada desse encontro.
Quanto muito, mais uma decepção, mais um
vazio: daqueles que fazem bem
à dignidade narcisista, como uma dor.
Aos quarenta anos sou como era aos dezassete.
Frustrados, o homem de quarenta anos e o rapaz de dezassete
podem, decerto, encontrar-se, balbuciando
ideias convergentes, sobre questões
separadas por dois decénios, uma vida inteira,
mas que aparentemente são as mesmas.
Até que uma palavra, saída das gargantas hesitantes,
paralisada de pranto e vontade de estar só -
lhes revele a disparidade sem remédio.
E, ao mesmo tempo, terei de fazer de poeta
pai, e refugiar-me na ironia
- que te embaraçará: porque o homem de quarenta anos
é mais alegre e mais jovem do que o rapaz de dezassete,
sendo já senhor da sua vida.
Para além desta aparência, deste disfarce,
nada mais tenho a dizer-te.
Sou avarento, o pouco que possuo
está bem fechado neste meu coração diabólico.
E os dois palmos de pele entre a face e o queixo,
por baixo da boca torcida de tanto sorrir
de timidez, e o olhar que perdeu
a sua doçura, como um figo que azedou,
parecer-te-iam o retrato
fiel dessa maturidade que te faz sofrer,
uma maturidade não fraterna. De que pode servir-te
alguém da tua idade - mas entristecido
na magreza que lhe devora a carne?
O que ele deu, está dado, o resto
é árida piedade.




Pier Paolo Pasolini
poemas
de «poesia in forma di rosa»
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




Artwork by Urs Stooss

Estas segundas... estas

 
                ESTAS


são as semanas desoladas, sombrias
em que na sua aridez a natureza
rivaliza com a estupidez humana.

O ano despenha-se na noite
e o coração é um abismo
mais fundo que a noite

nesse vazio varrido pelo vento
sem sol, sem lua nem estrelas
apenas uma estranha luz do pensamento

que lança um tenebroso fogo -
rodando sobre si mesma até
no frio incendiar-se

e revelar ao homem algo que ele
desconhece, não a solidão
em si - não um espectro

ainda que o pudesse abraçar - vazio,
desespero - (gemendo
soluçando) entre

as chamas e os estrondos da guerra;
casas em cujos aposentos
o frio ultrapassa o imaginável,

aqueles que se foram e que amávamos
vazias as camas, húmidos os
sofás, as cadeiras sem uso -

Oculta-os algures
longe do pensamento, deixa-os criar
raízes e crescer, salvo de olhos e ouvidos

ciosos - por si somente.
A esta mina chegam para escavar - todos.
Será isto o contraponto da música mais

suave? A fonte da poesia que
ao ver o relógio parado, diz:
Parou o relógio

que ontem trabalhava tão bem?
e ouve o som das águas do lago
salpicando - agora petrificadas.



William Carlos Williams

 
antologia breve
tradução josé agostinho baptista
assírio & alvim
1993





The Melting Sculpture by Urs Fischer 

Ah, estas segundas-feiras...





Artwork by Urs Stooss

quinta-feira, 14 de março de 2013

Sonhos de grandeza humana



"Dreams of packing it all in" by Slinkachu

"deus", o chupa-chupa da humanidade


Hoje de manhã fui dar uma vista de olhos pela blogosfera e pelas reações ao novo papa. O costume.
99 % da blogosfera não é mais do que pequenez a céu aberto, é como se cada um de nós editasse um jornal e as bancas fossem invadidas por milhões de jornais. Uma espécie de amplificador de conversa de café, de conversa de vizinhos na escada. Pode ser interessante como objeto de estudo mas torna-se deprimente quando a falta de clarividência é aflitiva. E o que mais custa é ver pessoas aparentemente inteligentes a degradarem-se pelo processo e pela convivência e tornarem-se cada vez mais infantilóides, sem regresso.

De facto, a grande maioria dos cidadãos não consegue ver o que é a igreja e o que representa. Já estão tão cegos, a igreja já tocou tão fundo na sua educação, já foram a tantas aulas de moral e religião, a tantas missas, "compraram" tantas mentiras, que perderam a capacidade de ver a realidade dos factos, acham que são umas pessoas boas ao serviço de "deus" que querem o bem dos pobres, quando a igreja é apenas uma instituição "terrena" que se auto-perpetua através da "evangelização" e que tem de ser analisada por critérios "terrenos". E é terrena porque não há "céu" nem "deus", ok? Dah!

É uma instituição que degrada o homem porque lhe impõe o conceito de pecado e foi perversamente concebida para enfraquecer os fortes, corroê-los por dentro e depois fazer dos fracos, fortes como os primeiros mas neste caso, fortes-hipócritas, que é o que são os clérigos. 
A perversidade da igreja está bem patente na recuperação de toxicodependentes: drogados à entrada, crentes à saída.

Mas a contaminação ocidental já é tão grande que nem vale a pena discutir estes assuntos com "crentes".


Little people project by Slinkachu