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terça-feira, 5 de março de 2013

Será que fiz mal?


Será que fiz mal em publicar o último "post"? Afinal os pobres dos cardiologistas também têm direito a passear! E é tudo legal, como se vê no protocolo entre a apifarma e a ordem dos médicos.

O artigo 11º é muito deontológico, sim senhor doutor:


Artigo 11.º
É vedado aos associados da Ordem dos Médicos a aceitação directa ou indirecta de quaisquer pagamentos ou ofertas de valor significativo por parte de empresas associadas da APIFARMA, com excepção dos previstos nos artigos 5.º, 7.º, 10.º e 12.º.


mas hélas! há aquelas exceções. E nas exceções está o que interessa:


Artigo 5.º
1. Os custos de acolhimento dos médicos, os encargos com a respectiva inscrição, deslocação e estada em manifestações de carácter exclusivamente científico e em acções de promoção de medicamentos, cuja idoneidade científica tenha sido reconhecida pela Ordem dos Médicos nos termos do artigo anterior, podem ser custeados pelos associados da APIFARMA.
(...)

Artigo 6.º
Os locais das reuniões, o programa social, e os níveis de hospitalidade atenderão a custos financeiros de montante equilibrado. 


Montante equilibrado? Eu explico: Pousadas de Portugal, hotéis e restaurantes de luxo...
Mas continua:


Artigo 7.º
1. Os associados da APIFARMA podem custear a participação dos conferencistas nos eventos que organizam.
2. A tabela de honorários da Ordem dos Médicos é a única aplicável aos seus profissionais que participem como conferencistas.
3. Os associados da APIFARMA poderão proceder ao pagamento de idênticas prestações aos médicos, que a seu convite, intervenham como consultores nas reuniões científicas que organizam.

Artigo 8.º
1. Nas reuniões e cursos organizados pela Ordem dos Médicos, os associados da APIFARMA podem, mediante acordo com o organizador, anunciar ou exibir produtos, mostrar filmes e dar informação sobre os medicamentos apresentados.
2. Os organizadores deverão guardar a documentação relevante apresentada nos termos do Decreto Lei n.º 48/99, de 16 de Fevereiro.

Artigo 10.º
1. É permitida aos associados da APIFARMA a oferta gratuita de artigos de promoção de valor intrínseco insignificante, desde que estejam relacionados com a actividade de cuidados de saúde, ou envolvam benefício para o doente.
2. É permitida aos Associados da APIFARMA a oferta de textos, livros de referência, ou qualquer outra informação ou material com fins formativos.



Ou seja: os médicos só podem receber ofertas de valor insignificante mas...
...se for um tratado de medicina de várias centenas de euros já podem e se for uma viagem à África do Sul de vários milhares de euros também.

E a cereja no topo do bolo, a hipocrisia total, the big joke, é este artigo 9º do protocolo:



Artigo 9.º
É absolutamente vedado a qualquer associado da APIFARMA influenciar, através de benefícios injustificados de carácter financeiro ou material, os médicos por outros motivos que não o interesse do próprio doente.



Ahah é preciso ter lata!
Mas gosto deste tipo de corrupção organizada: tem parâmetros bem definidos e protocolados, ninguém se desorienta.

A propósito, o que é feito do Julian Assange?



Behind the green door, Julian?

Por acaso Behind the Green Door é um clássico do cinema pornográfico, de 1972, dirigido por Artie e Jim Mitchell, considerado um dos maiores sucessos no género, ao lado de Deep Throat e The Devil in Miss Jones.

E de facto foi pornográfica a forma como ele expôs verdades ocultas de diversos governos e instituições. Mas alguém tem de o fazer, sempre, para quebrar ilusões globais criadas pelos media controlados pelo poder político e económico.

Depois, foi igualmente pornográfica a forma como o quiseram silenciar com a campanha suja que os EUA e o Reino Unido, aliando-se ao poder económico, lançaram contra ele, para denegrir a sua imagem.

Mas ele resiste e todos nós que amamos ir o mais fundo possível na verdade, também vamos resistir.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Confidencial e pouco saudável


Proponho-vos uma adivinha:

Quantos cardiologistas portugueses acabaram de regressar deste congresso, depois de passarem 15 dias à conta dos laboratórios, em que só tiveram de ir umas horitas às sessões de trabalho e depois foi só passeio e visitar, entre outros locais, o Kruger National Park? 

Uma oferta de muitos milhares de euros... sem contar que o acompanhante só pagou as viagens e apenas deu um valor simbólico pela estadia... e todos sabemos que não há almoços grátis, quanto mais viagens grátis de 15 dias à África do Sul.

A propósito, factos esclarecedores encontrados no Portal da Saúde - Ministério da Saúde sobre o negócio dos medicamentos no nosso país:

O mercado dos medicamentos (só os vendidos em ambulatório, não os hospitalares) no nosso país valeu 2942 milhões de euros em 2011, dos quais  a grande fatia veio de prescrições dos médicos do SNS (2100 milhões de euros).
Nessas prescrições, o valor comparticipado pelo estado foi de 1326 milhões de euros.
Vou repetir: os contribuintes portugueses pagaram mil trezentos e vinte e seis milhões de euros às farmacêuticas em 2011.
Vem tudo aqui: Análise do Mercado de Medicamentos, em Ambulatório - dezembro 2012

Como se vê, a faturação das empresas farmacêuticas e o negócio gerado pelas canetinhas dos médicos do SNS dão e sobram para aquelas levarem alguns dos senhores doutores - os mais produtivos a "vender"ou o melhores opinion leaders, claro - à África do Sul, à Austrália, à Argentina ou ao Pólo Norte. Até dava para os levar ao Espaço! 

Para terminar, um artigo interessante:

Drug Companies & Doctors: A Story of Corruption

E depois grita-se "Abaixo a Troika"... talvez devesse gritar-se "Abaixo os que roubam o Estado".


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

E agora que a poeira assentou...


... Que vos digo sobre esta notícia? E ainda sobre esta, que surgiu meia-hora depois, em que o presidente do CNECV se "atira para fora de pé" com o exemplo idiota dos dois meses de vida, servido a frio?

Antes de mais devíamos todos ter lido o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, e não ter ido na histeria da carneirada que gritava "assassinos", "nazis" e coisas desse género.

Mas que vos tenho a dizer, de minha justiça? Tenho a dizer-vos isto:



Digo-vos também que a abordagem da questão passa muito por ter de se começar a encarar de forma diferente a inevitabilidade da morte:







E por saber exatamente com que "vendedores de milagres" estamos a lidar:



Para finalizar recomendo-vos a leitura deste excelente "post" de Helena Araújo, no blogue "Dois dedos de conversa", assim como deste outro escrito por Mariana no blogue "Dias de Telha".

Rest my case. Qualquer questão, não hesitem.